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Enchentes, parasitas e vertigem


A polêmica da semana ficou por conta da palestra do Ministro Paulo Guedes, sobre o peso da Folha de Pessoal no orçamento da União, aí ele usa imagem de que os parasitas estão matando o hospedeiro. A imagem foi infeliz, mas traduz bem o tamanho do problema. Se não quisermos usar os números do Governo, o Banco Mundial publicou, em novembro passado, um relatório sobre levantamento feito em 53 países, dos mais desenvolvidos, com a posição do Brasil em relação ao resto do mundo, o resultado assusta. O Brasil gasta 13,1% do PIB com o funcionalismo federal, enquanto França, Portugal, EUA e Austrália gastam 9%, o nosso vizinho Chile gasta 6,4% do seu PIB. Além de ser o campeão dos gastos com funcionalismo o Brasil apresenta uma diferença de 67% maior entre a remuneração do setor público e a do setor privado. A diferença média no mundo é de 16%. Enquanto no mundo, o funcionalismo emprega 10% da população economicamente ativa, no Brasil esse percentual é de 5,6%, ou seja, pagamos mais a menos pessoas. O Relatório cita um exemplo de carreira que mostra bem a nossa realidade. Um advogado, em início de carreira na inciativa privada tem a remuneração média de R$ 3.100,00, no Governo Federal essa remuneração inicial é de R$ 18.000,00 e no Judiciário é de R$ 30.000,00. O Ministro Guedes carregou a mão nas tintas em sua apresentação, mas qualquer pessoa, de bom senso, vai concluir que uma população com uma renda média de R$ 2.100,00 não pode sustentar um funcionalismo com salários e privilégios dezenas de vezes superiores aos da população. Essa distorção tem que ser combatida, como forma de diminuir a cruel desigualdade brasileira. Senão vamos continuar assistir a situações como a da cidade de São Paulo, onde o orçamento para obras de saneamento, para esse ano de 2020 é de R$ 202 milhões e a despesa com a previdência dos servidores é de R$ 14,1 bilhões. Não vai ser fácil mudar isso, mas pelo menos alguém colocou o dedo na ferida, mostrando a barbaridade que foi montada, ao longo dos últimos vinte anos, de planos generosíssimos de cargos e salários e políticas de valorização do funcionalismo, bandeira do PT que, ainda hoje é o partido dos sonhos do funcionalismo. Mas políticos de todas as esferas fazem da benesse ao funcionalismo sua base de campanha. Agora mesmo, a Prefeitura de Leopoldina anunciou o edital para um concurso público. Por que fazer isso há dez meses do final de governo? Isso seria uma decisão para o próximo Prefeito. Não tem nada de ilegal no concurso, mas o Prefeito que sai está criando despesas para o que vai entrar, não é ilegal, mas é eticamente questionável. No meu entendimento não poderia haver concurso público em ano eleitoral. A Câmara podia criar uma lei assim, mas é pedir muito. Afinal, levantamento feito sobre o trabalho das Câmaras no Brasil mostrou que 92% dos projetos aprovados referem-se a nomes de ruas, homenagens e títulos de cidadania. Francamente, é muito dinheiro gasto para tão pouco resultado.


Muito embora os números da economia brasileira sejam animadores, o preço do dólar começa a preocupar, à medida que ele se aproxima de R$ 4,50 e sem dar sinais de recuo. A subida do dólar é uma excelente notícia para os exportadores e uma péssima notícia para os consumidores locais. Normalmente essas subidas elevam os preços internos e aumentam a inflação. Por uma incrível coincidência, os preços internacionais dos alimentos e do petróleo estão em queda o que neutralizou os efeitos da subida da moeda americana, não impactando a inflação, mas isso é uma situação excepcional e que não deve durar para sempre. O desafio do Governo é atrair capital estrangeiro de investimento, via privatizações. O capital é covarde, ao menor sinal de risco ele foge. A guerra política interna tem sinalizado para o mundo uma situação de instabilidade política no Brasil. Essa instabilidade só existe na imprensa, todas as instituições estão funcionando plenamente, as contas públicas têm o melhor resultado em cinco anos, a dívida pública parou de crescer e até diminuiu em relação ao PIB, coisa que não acontecia há mais de uma década. Além disso a criminalidade foi reduzida em 25% no último ano, mas se você for ler os jornais parece que estamos no meio de uma guerra civil, com chacina de índios, Amazônia incendiada, perseguição religiosa, comida contaminada por agrotóxicos e outras sandices do gênero. Essa guerra midiática acabou por prejudicar a imagem brasileira, retardando os investimentos externos. A ida do Ministro Guedes a Davos, sem a presença do Presidente, permitiu uma pauta mais sadia e foi possível divulgar melhor o nosso desempenho. Vamos ver se essa situação externa melhora.


E no domingo, a Democracia em Vertigem não levou o Oscar de melhor documentário. Muito já foi dito sobre esse documentário ficção, eu, assistindo à cerimônia, fiquei me perguntado como uma mulher vai vestida de vermelho num lugar todo acarpetado de vermelho? A diretora ficou parecendo um tomate boiando num molho à bolonhesa. É o que faltou comentar.



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