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Delegado suspeito de corrupção em Ubá é encontrado morto

Policial estava com mandado de prisão em aberto e corpo foi localizado no Rio; operação prendeu três pessoas


Um investigador da Polícia Civil de Ubá, uma ex-estagiária da unidade policial e um advogado foram presos durante a operação Patmos, desencadeada nesta terça-feira (3) pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e pela Polícia Civil para apurar a prática de corrupção e associação criminosa, entre outros crimes, que estariam sendo cometidos, em tese, na Delegacia Regional de Ubá, na Zona da Mata. O delegado Alexandrino Rosa de Souza, que também estava com mandado de prisão temporária em aberto, mas ainda não havia sido localizado, foi encontrado morto dentro de um carro acidentado durante a manhã desta terça no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela assessoria da Polícia Civil de Minas.

O delegado teria cometido autoextermínio na Linha Amarela, por meio de disparo de arma de fogo contra a própria cabeça, quando trafegava em um carro pela pista sentido Centro. A assessoria da Polícia Civil do Rio de Janeiro confirmou que a ocorrência foi registrada como suicídio, após a perícia ser realizada onde Alexandrino foi achado, no interior de um veículo. O primeiro atendimento teria sido prestado por volta das 9h30, por policias civis de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, que passavam pelo trecho. Em nota, a Polícia Civil de Minas informou que o delegado “estava em férias regulamentares e não foi localizado durante o cumprimento dos mandados. Paralelamente, a PCMG recebeu informações da Polícia Civil do Rio de Janeiro, sobre a ocorrência de um acidente de carro, por volta das 9h30, em um túnel na Linha Amarela, na capital daquele estado, em que o policial teria sido vítima fatal. Policiais Civis do Rio de Janeiro prestaram socorro e constataram ferimento por arma de fogo na cabeça do policial, indicando suicídio. A PCMG aguarda exames periciais para confirmar essa hipótese.”

O caso foi encaminhado para investigação na Delegacia de Homicídios da capital fluminense, e o corpo foi conduzido para necropsia no IML do Rio. O MPMG afirmou, por meio de sua assessoria, que não vai se pronunciar sobre a morte do policial, que era um dos alvos da operação, antes das conclusões das investigações da Polícia Civil.

Tráfico e peculato

Ao todo foram expedidos pela Justiça quatro mandados de prisão e seis de busca e apreensão para serem cumpridos em Ubá e também em Juiz de Fora no âmbito da operação Patmos. Conforme o MPMG, as investigações revelaram indícios de que os investigados, incluindo os policiais lotados na Regional de Ubá, e outras pessoas, ainda não identificadas, teriam agido com o objetivo de praticar tráfico, associação, peculato, corrupção passiva e advocacia administrativa, todos previstos no Código Penal. As investigações continuam sob segredo de justiça, razão pela qual o mérito das investigações e os nomes de todos os envolvidos ainda não foram revelados pelas autoridades.

A ação foi realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Regional de Visconde do Rio Branco, Corregedoria da Polícia Civil e Promotorias de Justiça da Comarca de Ubá. Cinco promotores de Justiça, cinco delegados e diversos agentes da Polícia Civil foram mobilizados nos trabalhos. Em nota, a Polícia Civil destacou que a Corregedoria apoiou no cumprimento dos mandados, mas que a investigação é conduzida pelo Gaeco.

A operação foi batizada de Patmos em referência à ilha grega de mesmo nome, onde, no final do primeiro século, o apóstolo João recebeu as revelações do livro do Apocalipse. As investigações continuam para apurar condutas de agentes públicos e de terceiras pessoas de Ubá e região.

Esquema criado para recebimento de propina

A apuração da conduta de agentes públicos lotados na Delegacia de Polícia Civil de Ubá visa a identificar possível organização criminosa que teria sido formada para o suposto recebimento de propina. As investigações teriam ganhado corpo após a deflagração da operação Bereshit, desencadeada em março para desbaratar uma quadrilha ligada a tráfico de drogas e lavagem de dinheiro com braços em Ubá, Visconde do Rio Branco e Juiz de Fora. A investida também partiu do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Regional de Visconde do Rio Branco, resultando na prisão temporária de 18 pessoas, sendo 15 delas em Ubá. Entre os alvos na época estavam empresários do mesmo município, apontados como responsáveis pela lavagem do dinheiro da organização criminosa.

Os mandados de busca da Bereshit culminaram na apreensão de cerca de R$ 4 milhões, entre dinheiro, cheques, 80 automóveis, jet ski, computadores, celulares e arma. No decorrer das investigações já haviam sido apreendidos mais de 100kg de maconha, 3kg de crack, 2kg e 214 pinos de cocaína, além de R$ 15 mil. Ainda durante os trabalhos, teria sido descoberto que um dos detidos na operação havia entregado anteriormente a policiais civis de Ubá arma, ouro, dinheiro e metade das drogas apreendidas em determinada ocasião para que não fosse preso. Os valores ultrapassariam R$ 70 mil.

O suposto esquema de corrupção envolvendo policiais civis de Ubá contaria com a participação do advogado e da ex-estagiária presos nesta terça-feira na Patmos. O grupo ainda é suspeito de ter facilitado a restituição de veículos envolvidos em ocorrências policiais.

Corrupção passiva

Além de organização criminosa, tráfico e associação para o mesmo crime, os suspeitos podem responder por peculato, que é quando o funcionário público apropria-se “de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio; por corrupção passiva, devido a “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”; e por advocacia administrativa, que significa “patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário”. A Justiça teria determinado a quebra dos sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos investigados, assim como a indisponibilidade dos valores e bens móveis e imóveis.

Fonte: Tribuna de Minas

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